Lancet Low Back Pain Series

Mudanças na tomada de decisão para pacientes com dor lombar: a hora é agora!

A dor lombar é a principal causa de incapacidade em todo o mundo e uma urgente preocupação de saúde pública global. Cerca de 540 milhões de pessoas estão sofrendo com os sintomas da dor lombar em todo o mundo. A incapacidade global devido à dor lombar mais do que duplicou desde 1990. Porém, com o envelhecimento e o crescimento da população, essa incapacidade aumentará ainda mais, particularmente em países de baixa e média renda, como o Brasil.

A série de artigos publicados na última semana no periódico internacional The Lancet foi elaborada com o objetivo de alertar a população que apresenta esse sintoma, assim como alertar os profissionais de saúde, e os órgãos públicos, em relação sobre os equívocos relacionados com os cuidados de saúde inadequados que os pacientes com dor lombar estão recebendo. Esses cuidados inadequados causam danos a milhares de pacientes mundialmente e desperdiça recursos de saúde valiosos.

Equívocos sobre as melhores práticas de cuidados aos pacientes com dor lombar são comuns entre todos os profissionais e financiadores de saúde e também pelos próprios pacientes, sendo que na maioria das vezes as diretrizes de prática clínica são frequentemente ignoradas. Pacientes deveriam estar cientes que muitos cuidados de saúde recebidos não necessariamente significam que melhores cuidados foram ofertados. Finalmente, a maioria dos tratamentos mais agressivos para a dor lombar (como cirurgias, por exemplo) tem pouco benefício comprovado, além de potencialmente tornar os problemas ainda piores para os pacientes.

Não há evidências de que exames por imagem de rotina da região lombar melhorem os resultados clínicos dos pacientes. Além disso, os pacientes que recebem exames por imagem são significativamente mais propensos a receber cuidados desnecessários como infiltrações e cirurgia de coluna. Sendo assim, exames por imagem só deveriam ser indicados em casos de suspeita clara de doenças severas de coluna, como, por exemplo em casos de déficit neurológico progressivo.

Em 2011, cerca de 13 bilhões de dólares foram gastos em cirurgias de fusão espinal nos EUA. Apesar disso, há um enorme percentual de insucesso dessa cirurgia, que possui pouca evidência para a maioria dos pacientes com dor lombar. Além disso, mais da metade das pessoas com dor lombar que fazem uso continuo de opióides por um longo período de tempo não apresentam melhora significativa dos sintomas e ainda correm riscos substanciais de dependência, overdose e até mesmo de morte.

Essa série de artigos publicados no periódico The Lancet também destaca tratamentos menos prejudiciais, mas de baixo valor para os pacientes. Exemplos desses tratamentos seriam manipulações vertebrais, massagem e acupuntura, quando utilizadas de forma isolada. O uso dessas intervenções desperdiçam tempo e recursos para pacientes e profissionais de saúde.

Então o que deveria ser recomendado?

Segundo os artigos publicados na Lancet, a melhor evidencia disponível demostra que a primeira linha de atenção e cuidados aos pacientes deveria ser focada em tratamentos baseados em educação e aconselhamentos para que os pacientes se mantivessem ativos, ensinando os pacientes soluções sobre como lidar com seus sintomas e retorno ao trabalho e/ou esporte o mais rápido possível. Além disso, o tratamento conservador deveria envolver a fisioterapia baseada em exercícios e, em alguns casos, medicamentos como analgésicos não opióides e antiflamatórios por um curto período de tempo podem ser indicados. Nos casos mais crônicos, ou aqueles pacientes que apresentam uma maior probabilidade de cronificação, algum acompanhamento psicológico ou terapia cognitiva comportamental podem ser necessárias para ensinar o paciente a lidar com a ansiedade, estresse e crenças negativas relacionadas com a dor lombar.

Sendo assim quais são os principias planos de ação?

Os pacientes deveriam ser ensinados a auto gerenciar os seus sintomas em relação a dor lombar e encorajados a procurar cuidados somente quando realmente for necessário. Além disso, as crenças generalizadas e imprecisas sobre a dor lombar devem ser desafiadas e um foco na redução do impacto da dor lombar na vida das pessoas em vez de buscar tratamento médico para uma possível “cura” deveria ser estimulado.

Além disso, há necessidade urgente que órgãos financiadores dos cuidados de saúde deveriam parar de pagar por exames e tratamentos ineficazes e muitas vezes nocivos para os pacientes. Adicionalmente, mais pesquisas sobre aqueles tratamentos que ainda não foram testados deveriam ser urgentemente realizadas. Finalmente, novos exames, testes e tratamentos não deveriam ser comercializados antes de serem testados adequadamente quanto à segurança, eficácia e custo-eficácia.

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Por Luciola Costa
15 de fevereiro de 2020

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